Caminhando com a Palavra: A Parábola do Filho Pródigo

Na reflexão desta edição do Caminhando com a Palavra, vamos mergulhar no texto de Lucas rezado neste IV Domingo da Quaresma.  Em Lu 15,11-32, vemos Jesus contando uma parábola que vai apresentar a infinita misericórdia do coração de Deus. Aquele filho, que recebe do pai a parte da herança que lhe corresponde, e abandona a casa para desperdiçá-la num país longínquo, vivendo uma vida libertina, é em certo sentido, o ser humano de todos os tempos. A analogia neste ponto é muito ampla. A parábola aborda todo o tipo de rupturas da aliança de amor, todo afastamento da fonte misericordiosa.

Vamos aos versículos:

  • 12 “Dá-me a parte da herança”: segundo Dt 21, 17 pertencia-lhe um terço, havendo só dois filhos. O pai podia fazer as partilhas em vida (cf. Sir 30, 28ss).
  • 13 “Partiu…”: o pecado do filho foi abandonar o pai, esbanjar os seus bens e levar uma vida dissoluta.
  • 14-16 “Uma grande fome”: é a imagem do vazio e insatisfação que sente o ser humano quando está longe de Deus.  “Cuidar dos porcos”: era uma humilhação abominável para um judeu, a quem estava proibido criar e comer estes animais considerados impuros. Esta situação para alguém vindo de uma boa família era o cúmulo da baixeza e da servidão.  A “comida dos porcos”: o rapaz já se contentaria com uma tão indigesta e indigna comida, mas, nem isso lhe era dado.  O filho pretendia ser livre da tutela do pai, mas acaba por perder a liberdade própria da sua condição. (cf. Rom 8, 21; Gal 4, 31; 5, 13).
  • 17 “Então, caindo em si…”: A degradação a que a loucura do seu afastamento da fonte da misericórdia o tinha levado fê-lo refletir (é o começo da conversão) e buscar pela única saída digna e válida.
  • 18-19 “Vou-me embora”: A tradução latina, mas do original grego – “levantar-me-ei” – é muito mais expressiva, pois, indica a atitude de quem começa a erguer-se da sua profunda miséria. “Pequei contra o Céu e contra ti”: nesta expressão retrata-se a dimensão transcendente do pecado; não é uma simples ofensa a um homem, é ofender a Deus, uma ofensa de algum modo infinita! O filho não busca desculpas, reconhece sinceramente a enormidade da sua culpa. “Trata-me como um dos teus trabalhadores”. É maravilhoso perceber como o arrependimento vai trazendo de volta o amar ao pai; o que ele deseja é ir para junto do pai, estar junto a ele é o que o pode fazer feliz! Por outro lado, não se atreve a pedir ao pai que o admita no gozo da sua antiga condição de filho, porque reconhece a sua indignidade, “já não mereço ser chamado teu filho”.
  • 20 “Ainda ele estava longe, quanto o pai o viu”. Este pormenor faz pensar que o pai não só desejava ansiosamente o regresso do filho, mas também, muitas vezes, observava ao longe os caminhos, impaciente de ver o filho chegar quanto antes, uma enternecedora imagem de como Deus aguarda a nossa conversão e nosso retorno. “Encheu-se de compaixão”. “E correu…”: é impressionante o contraste entre o pai que corre para o filho e o filho que simplesmente caminha para o pai – a misericórdia de Deus corre ao nosso encontro; “cobrindo-o de beijos”: é esta a belíssima e expressiva imagem do amor de Deus para com um pecador arrependido!
  • 21 “Pai, pequei”. Apesar de se ver assim recebido pelo pai, o filho não se escusa de confessar o seu pecado e de manifestar a atitude interior que o fez regressar.
  • 22 “A melhor túnica, o anel, o calçado”, são imagens da graça, o traje nupcial (cf. Mt 22, 11-13); assim nos espera o Senhor no Sacramento da Reconciliação, não para nos recriminar, mas para nos admitir na sua antiga intimidade, restituindo-nos, cheio de misericórdia, a graça perdida.
  • 23 “Comamos e festejemos”: a imagem da Sagrada Eucaristia, segundo um sentido espiritual corrente. Prefiguração da Festa da Páscoa Eterna.
  • 25-32 “O filho mais velho”: esta segunda parte da parábola não se pode limitar a uma censura dos fariseus e escribas (v. 2) a parábola é também uma lição para todos, a fim de que imitemos a misericórdia de Deus para com um irmão que errou, e se afastou (cf. Lc 6, 36); ele é sempre “o teu irmão” (v. 33), mesmo diante daquela despeitada ironia: “esse teu filho” (v 30). A misericórdia de Deus é tão grande, que ultrapassa uma lógica meramente humana; esta segunda parte da parábola põe em evidência a misericórdia de Deus a partir do contraste com a mesquinhez do filho mais velho.

Irmãos e irmãs, imitemos a misericórdia divina e deixemo-nos orientar por esta dinâmica amorosa: Sejamos misericordiosos à semelhança de Deus, nosso Pai.

Colaboração: Marcos Cunico

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